Memória Olfativa

Parte das lembranças que permanecem e que marcaram minha vida estão relacionadas a aromas.

Quem já não teve aquela sensação de sentir uma fragrância e lembrar de alguém, um lugar, uma situação, um momento.

Tenho exemplos marcantes que me tocam até hoje, como o perfume de minha mãe, os aromas dos condimentos usados em seus pratos; a casa de minha avó e o cheirinho agradável de seu quintal, repleto de hortaliças, ervas e árvores frutíferas, a fragrância de seu jardim ao redor da casa, a minha infância….são infindáveis as lembranças  e, inevitavelmente, caso venha a sentir um aroma similar,  me remetem àquele passado.

O aroma foi responsável por parte da minha escolha no negócio do chá. A Holanda (Países Baixos) me proporcionou ocasiões sensoriais incríveis, as quais não esquecerei.  Lembro dos passeios pelos campos, florestas,  ruelas e feiras livres, com aromas típicos marcantes e as pequenas lojas de chás. O país realmente é um convite a estas sutilezas aromáticas das mais diversas culturas e origens.

Surpreendentemente também fui pega pelos aromas das infusões vendidas em mercados livres da Alemanha. Paixão à primeira vista.

Todos estes registros memoriais me ajudaram nas primeiras instruções de Jaap de Groot( em memória), meu primeiro amigo do chá. Fui aprendendo a usar aquelas percepções para identificar e saborear os diversos tipos de chás, que para mim, na década de 90, eram inéditos. Já faz tanto tempo!!!!!

Analisar os aromas dos chás, sentir seu sabor não é algo que se aprenda do dia para a noite e este aprendizado deve ser contínuo, exercícios diários.

Aproximadamente 35% de nossa memória é aroma e ela nos ajuda a reconhecer e sentir sabores.

Há uma pesquisa da Harvard que demonstra muito a relação do olfato ao sabor.

Os pesquisadores conectaram essas memórias olfativas ao sabor. “Quando você mastiga, as moléculas da comida, dizem eles, “ voltam retro-nasalmente ao epitélio nasal ”, o que significa que, essencialmente,“ tudo o que você considera sabor, na realidade é cheiro. Quando você está comendo, todos intensos e deliciosos sabores … eles são todos cheiros. ” Murthy disse que você pode testar essa teoria apertando o nariz ao comer algo como sorvete de baunilha ou chocolate. Em vez de provar o sabor, “tudo o que você pode saborear é doce”, diz ele.

Portanto, na prática, saborear o chá é neutralizar-se de tudo. Fechar os olhos e tentar imergir nesse universo que é nossa memória olfativa, resgatando algo que nos faça lembrar do aroma, degustando e armazenando esta informação para que, em uma próxima vez,  possamos identificar aquele sabor tão especial.

O  mundo do chá é puramente aromático e há uma infinidade de nuances que variam de acordo com as regiões de cultivo, “terroir”, sazonalidade de colheita, mudanças climáticas, processamento e modo de preparo. Tudo isso irá influenciar no perfil do chá. O mais importante é que estejamos ávidos pelo prazer de apreciar uma boa xícara de chá. Deve ser um momento de total relaxamento para que seja possível realizar viagens incríveis, através de nossa memória olfativa, e que nos conecte aos melhores momentos de nossas vidas.

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