Uma busca notável revela um capítulo não contado na história do chá indiano – por Aravinda Anantharaman

James Ajoo no local do túmulo da família McIvor em Nilgiris.

Uma pergunta aparentemente inócua enviou James Ajoo, de Chennai, sul da Índia, em uma busca que, 14 anos depois, está finalmente mostrando luz no fim do túnel. Em 2007, quando James Suthan Ajoo estava estudando Teologia Bíblica em Oregon, nos Estados Unidos, colegas de classe o questionaram sobre seu sobrenome incomum, ‘Ajoo’.

Ele não tinha respostas, então seu pai lhe disse : “É um nome chinês”.

Dois homens do chá em Munnar, por volta do final do século XIX.

James, 37 anos, nasceu e foi criado em Chennai. Sua família remonta a algumas gerações e, pelo que ele sabia, não havia nada em sua aparência que indicasse uma conexão chinesa, nem havia qualquer associação conhecida com a China. Mas James se lembrava de episódios e histórias de família onde mencionava um ancestral chinês. Agora, ele sentia a necessidade de saber mais, verificar sua autenticidade e entender como e por que ele tinha um ancestral chinês. Então ele recorreu ao Google. “Encontrei muitos Ajoos na Coreia”, diz ele. Sua busca por informações sobre o nome Ajoo e alguém que carregava esse nome acabou levando-o ao chá.

Por três anos, entre 2007 e 2010, ele tentou encontrar um vínculo com um “Ajoo” distante que poderia ser seu ancestral. Sua família era de Munnar e seu avô trabalhava com chá. Durante sua pesquisa, James chegou à história dos Nilgiris.

Nilgiris, no sul da Índia, tem uma história bem diferente de Darjeeling ou Assam; sua história do chá vem com uma conexão chinesa incomum. Na década de 1850, W.G. McIvor, que fundou o Jardim Botânico de Ooty, escreveu ao superintendente em Madras pedindo 500 prisioneiros. Ele precisava de homens para trabalhar no cultivo da cinchona (cultivada para o quinino, que era o antídoto para a malária). O pedido de McIvor foi oportuno, pois as prisões de Madras estavam lotadas. Os prisioneiros capturados durante a Guerra do Ópio foram trazidos do estreito de Cingapura e precisavam ser alojados em algum lugar. Desta forma, 556 prisioneiros de guerra de Cingapura, Malaca e Penang chegaram a Naduvattam, em Nilgiris. Eles trabalhavam na cinchona, mas também no cultivo de chá que havia começado. Presume-se que eles permaneceram ali e passaram a fazer parte da população local. James Ajoo ouviu essa história e se perguntou se seu ancestral era um desses 556 prisioneiros de guerra.

Somente em 2010 James teve sorte em sua procura. Olhando os arquivos online da Biblioteca Britânica, ele descobriu que em 15 de março de 1851,  o navio a vapor Lady Mary Wood havia ancorado em Calcutá, tendo deixado Hong Kong um mês antes. Ele estava carregando uma carga de sementes e mudas de chá. A lista de passageiros incluía o escocês Robert Fortune e oito homens chineses, entre eles John Ajoo.

“Não gostei do decorrer da história”, confessa James. “Mas eu tinha muitas perguntas. Havia outros chineses também. Ao todo, Fortune trouxe 23 chineses para a Índia entre 1850-56. Os oito que vieram com ele no Lady Mary Wood foram enviados para Pauri, onde o plantio do chá já estava em andamento. ”

Pauri fica no sopé do Himalaia, no estado atual de Uttarakhand. Cerca de 200 quilômetros dali fica Saharanpur, onde a Companhia das Índias Orientais instalou o Jardim Botânico no século XVIII. Foi para os superintendentes do jardim de Saharanpur que as mudas de chá foram enviadas por Fortune. Os oito chineses que Fortune estava trazendo era para ensinar os nativos a fabricar chá.

James estava agora abordando sua história sob dois extremos, a de Fortune e a chegada de John Ajoo à Índia. Ao contrário da história da família e do folclore, ele queria ver se estes dois extremos se encontrariam. Embora a história do chá indiano e a história da família Ajoo tivessem começado a se cruzar, o meio era um grande mistério não documentado.

A pesquisa revelou-se difícil, pois os britânicos levaram de volta a maioria dos registros quando a Índia se tornou independente. Muitos outros documentos foram destruídos. James teve então que confiar muito na história oral.

James mora no Sul da India, Pauri fica na fronteira noroeste da Índia. Sua ancestralidade conhecida foi Munnar em Kerala. Como John Ajoo chegou em Kerala? Uma grande questão. “Para preencher essas lacunas … estive nessa jornada”, diz James.

O pai de James, Stephen Ajoo, é pastor. Tendo crescido em Munnar, ele fez um breve estágio em uma fábrica de chá antes de deixar as colinas para a cidade costeira de Chennai, no sul. Com isso, a conexão da família com o chá acabou. Para James, Munnar era o lugar que eles visitavam nas viagens em família. “Sempre foi assim, foi ali que meu pai cresceu, e o pai dele antes dele”, diz ele. Conforme  progredia na história de sua família, James se voltou para Munnar em busca de pistas.

Há uma seção de chazais em Munnar onde os habitantes locais chamam de “Chinaman’s Field” ou Campo do Chinês, próximo ao jardim de chá Talliar (ainda de pé). O cultivo em Talliar se deu na década de 1880, e James pode falar com as pessoas ali, incluindo o gerente da Talliar. Foi em Munnar onde ele encontrou mais informações e mais peças do quebra-cabeça. A Igreja CSI em Munnar tinha um registro de morte de John Antony Ajoo, que indicava o ano de nascimento como 1869. Ele era filho de John Ajoo.

Stephen Ajoo trabalhando no chá em sua juventude

Ainda em Munnar, James veio com um livreto que narrava a história da família de GT Thangaswamy. Esta pequena história familiar narrou como a indústria do chá Munnar surgiu e como a família Thangaswamy foi trazida para Munnar pela Companhia das Índias Orientais. Também menciona o amigo de Thangaswamy, John Antony Ajoo, filho do Chinês. Os membros desta família confirmaram que John Antony Ajoo e seu filho James realmente viveram em Munnar, como se sabe de sua tradição familiar.

Mas James ainda não sabia como John Ajoo, que foi visto pela última vez em Pauri, Uttarakhand, chegou a Munnar, Kerala.

Obituário

A jornalista Nina Varghese cresceu nos Nilgiris como filha de um fazendeiro. Ela relatou a história dos chineses em Nilgiris, recontando que, no início de 1860, os funcionários Nilgiris estavam ansiosos para repetir o sucesso do cultivo de chá de Darjeeling. Eles procuraram a ajuda dos fabricantes de chá chineses, os mesmos  que Fortune trouxera. Ofereceram-lhes fabricantes de chá nativos de Pauri, treinados pelos chineses, mas recusaram. Ao insistir que eles também recebessem os serviços dos fabricantes de chá chineses, dois dos oito chineses de Fortune foram enviados para os Nilgiris em 1863-64. Um deles foi John Ajoo. Sua chegada também é documentada por S. Muthaiah, um escritor de renome acadêmico, em seu livro A Planting Century. O livro foi encomendado pela UPASI, o corpo de fazendeiros do sul da Índia.

Parece que John Ajoo trabalhou nos Nilgiris, supostamente se casou com uma mulher local e teve um filho, John Antony Ajoo. Mas Munnar não está nos Nilgiris. Faz parte das cadeias de montanhas conhecidas como Gates Ocidentais que atravessam a borda ocidental da península indiana, da qual os Nilgiris não fazem parte. À medida que os Nilgiris desenvolveram suas plantações de chá, os britânicos foram mais longe em suas explorações em busca de terras adequadas. Munnar foi considerado adequado. Suas florestas foram derrubadas para dar lugar ao chá. Em 1877, Henry Turner e seu meio-irmão A.W. Turner começaram a plantar. Foi Henry quem pediu a John Ajoo que fosse para Munnar. John Ajoo partiu para essas colinas junto com sua família. Em Munnar, ele cultivou um pedaço de terra (o Campo do Chinês) não muito longe da propriedade Talliar, que fazia parte das propriedades dos Turners. Ele viveu lá até o fim, nunca mais voltando para a China.

Seu filho, John Antony, continuou o legado de seu pai, tornando-se um importante plantador. Seu registro de morte indica que ele tinha 82 anos (1951) quando faleceu. A linhagem familiar continua com James Ajoo, Kenneth Solomon Ajoo, Stephen Ajoo e James Ajoo.

Ao longo do caminho, os Ajoos mudaram do trabalho de plantação para a igreja. Mas, como James diz, “O chá corre em meu sangue, assim como a fé. Tentar conectar os dois é uma prioridade na minha história. ” Sua pesquisa indica que John Ajoo já era um cristão, um cristão católico. E que esses chineses, todos ligados à crença católica, eram minoria em seu país. Eles eram cristãos praticantes da província de Hwuy-Chow (Robert Fortune menciona que Hwuy-Chow estava fechado para europeus, e apenas os missionários jesuítas haviam visitado anteriormente).

A pesquisa ainda não está concluída. A última vez que conversamos, James estava nos Nilgiris, procurando por mais registros, mais respostas para completar esta história. De Hwuy-Chow Foo, um distrito de cultivo de chá em Anhui China a Pauri, os Nilgiris, Munnar e Chennai … a história da família Ajoo atravessa um capítulo não contado na história do chá indiano, um caminho que James Ajoo está tentando refazer, ” para dizer que coloquei meus pés onde meu ancestral havia caminhado. ”

Sua família tem sido uma fonte de apoio silencioso, “Meu pai diz que não é o chamado dele, mas sim o meu. Eu tenho que fazer isso.”

Lembrando as viagens de infância a Munnar, ele diz: “Eu pensaria: olhe para este lugar, campos de chá por toda parte, tantos chás, eu poderia viver aqui toda a minha vida. Agora descubro que meu ancestral realmente viveu aqui e cultivava chá. Isso me dá arrepios. ”

Plantação de chá nas colinas Kannan Devan, Munnar- India

Escritora, editor, colunista, repórter de chá e dirigente da Copac Media, uma consultoria criativa. Seus interesses são história e literatura, e sua influência na sociedade contemporânea. Aravinda publicou com a Penguin Random House (Índia).

 

Escritora, editora, colunista, repórter de chá e dirigente da Copac Media, uma consultoria criativa. Seus interesses são história e literatura, e sua influência na sociedade contemporânea. Aravinda Anantharaman publicou com a Penguin Random House (Índia).

 

Tradução livre Elizeth R.S.v.d.Vorst

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